11 de novembro de 2012

Entre o amor e a paixão.

-Eu te amo tanto que vou amassar sua cabeça como um purê de batata.
-E eu te amo tanto que vou colocar seu braço numa máquina de moer carne.

Era assim que começávamos o dia ainda na cama. Uma faixa de luz entrava pela janela e tomava conta da metade do quarto. Me fazendo ter vontade de não sair dali pelas próximas 24 horas. O que era impossível. Tínhamos que receber sua família prum almoço dominical, daqueles que todos falam juntos e ninguém escuta ninguém, você briga com sua irmã e eu tomo conta da sua sobrinha.
O almoço ia bem. Sua mãe reclamava de algumas coisas e a pequena Tonny habitava meu colo. O problema, o grande problema, era que o cara que eu havia conhecido no avião no dia anterior, o cara que mora na casa da frente, não saia da minha cabeça. Por mais que eu tentasse me concentrar no que sua mãe dizia, a imagem dele dormindo no avião se misturava com a voz dele dizendo ser uma pena que eu fosse casada já que ele morava na casa em frente a minha depois que descobrimos isso.
O almoço acabou, as pessoas se foram, e nos restou um final de domingo deprimente em frente a televisão. Você nem se dava conta de que meus olhos nem na tv estavam. Eu até podia realmente estar ali do seu lado no sofá com a cabeça encostada nos seus ombros, mas minha cabeça estava longe dali tentando imaginar como num jogo de imaginação, a casa da frente. Como seriam os móveis, se teria uma televisão pequena ou grande, se teria livros, uma boa cama e que música estaria tocando. E mais que isso estaria imaginando o que o dono daquela casa estaria fazendo naquele exato momento. Você ronca, interrompendo minha linha de pensamento.
No dia seguinte, levanto do seu lado. Com a sensação de que é do seu lado que eu quero passar o resto da minha vida. Enquanto faço xixi, você passa fio dental do meu lado. Torna-se a cena mais tediante da nossa história. Entro pro banho e como todos os dias da nossa vida de casados dentro daquela casa do chuveiro joga um jato de água fria na minha cabeça.
-Lou, você precisa arrumar esse chuveiro._ Grito pra você com raiva.
Como sempre você nem escuta.
E os próximos 30 dias baseia-se em você não me escutar. Não me perceber. Me levando a pensar que vida eu estaria levando com o cara da casa da frente. Era inevitável e percebível se é que essa palavra existe. Eu estava completamente apaixonada pelo cara da frente. Eu não sei como você não percebeu que todas as vezes que ele saiu de casa pra ir no mercado eu saí atrás, com a desculpa de que precisava de alguma coisa.
Mas essa era a questão. Enquanto você cozinhava seu vigésimo frango do mês, seguindo passo a passo do livro que você mesmo escreveu sobre como cozinhar um frango, sem olhar pra além do fogão, eu estava me apaixonando pelo Daniel. A gente até chegou a fazer planos pra daqui 30 anos. Era sem toque, sem tato, sem beijo e sem sexo. Eu te amava demais pra fazer isso com você.
Por fim, você acabou conhecendo nosso vizinho da frente e o convidou pra uma festa na nossa casa sem que eu soubesse. Quando Daniel chegou, e viu a gente dançando junto, todos aqueles portas retratos nossos na parede e o sorriso que tínhamos no rosto ao dançarmos ele resolveu que no outro dia logo de manhã partiria dali. E foi o que ele fez. Eu acordei com o barulho do caminhão de mudança. E quando desci as escadas, abri a porta, e vi que Daniel já havia partido com a mudança, eu me ajoelhei no passeio e chorei. Foi um choro real. Doeu de verdade, entende? Foi físico. E você viu tudo. Pela janela do nosso quarto.Quando voltei pro quarto você fingiu dormir. E eu te abracei. A gente acordou e depois do que havia acontecido. Terminei. Acabei. Com 5 anos. Você chorou, colocou a mão na cabeça e dizia não entender. Eu queria dizer que era culpa do frango talvez, mas preferi deixar quieto. Tudo que eu queria era sair dali logo e viver feliz pra sempre com Daniel. Você me mandou tomar banho. E eu fui. E logo depois do jato frio diário, você abriu a cortina do box com uma jarra na mão.
-Era você?
-Sim, todos os dias.
-Porquê?
-Porque eu queria daqui uns vinte anos, sei lá, trinta talvez, te contar o que eu fiz durante todo esse tempo, todos os dias, só pra te ver rindo disso. Piada a longo prazo.
Eu ri, mas do riso veio o choro. Queria te abraçar e pedir desculpa.

Meus primeiros meses com Daniel foram ótimos. Como em um filme. Eu finalmente soube se a tv era pequena ou grande, quais livros e músicas moravam com ele, e fizemos comida juntos todas as noites.
Mas não demorou muito e eu estava fazendo xixi com ele passando fio dental do meu lado. Deplorável. E depois de tudo que cavei e descobri naquela nova história você me ligou. A pequena Tonny queria me dizer olá pessoalmente. Cheguei na porta da nossa antiga casa, agora sua, e te vi sentado na escada. Estava magro, e com uma camiseta nova. Conversamos um pouco. Você disse que havia lançado o livro sobre como cozinhar frangos e havia sido um sucesso. Eu perguntei se você estava bem.
-Incrivelmente e finalmente, eu estou bem.
Ao ouvir aquela resposta eu senti uma vontade de saber se você mudou o sofá de lugar, se sua mãe ainda vem almoçar aos domingos e o que estava atrás daquela porta. Senti saudades. E senti também vontade de deitar no seu colo e te contar como minha vida anda monótoma e triste. Mas não seria possível. Eu te abandonei. Eu abandonei um amor pra viver uma paixão que agora virou amor. Um amor faminto de paixão. E depois de anos. Você ali na minha frente. Era minha nova paixão.

-Ei Margo, eu acabei de comprar uma maquina nova pra fazer bolas de melão e eu gostaria de arrancar seus olhos com ela.

15 comentários:

  1. Lindo e triste. Senti sentimentos controversos.
    Adorei.

    Um beijo

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  2. Quando se está a muito tempo em um relacionamento, acaba sendo assim, o desconhecido nos causa paixão.
    Como disse meu orientador uma vez: é fácil ter tesão pelo estranho, mas o mais importante é ter tesão todos os dias pela mesma pessoa.

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  3. É incrivel sua capacidade de nos envolver em pequenos relatos doces tristes lindos implacáveis... Amo seus textos '-'

    Tenha um ótimo fim de semana, flor!
    =)

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  4. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  5. Tenho medo da rotina, dos longos anos acordando e vendo os mesmos rostos, o dele, o meu. Medo do que vou me tornar e das atitudes que vou tomar. Medo de me sentir culpada ao saber que não há como voltar atrás. Medo de que um amor se torne uma confusão, um turbilhão de sentimentos vazios, uma monotonia chata. E me pergunto, desde já, onde foi que eu err.. vou errar?

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  6. Um dos melhores textos que eu já li em algum blog em toda minha existência!
    A história é sensacional e cá entre nós, faço-lhe uma pergunta: A história é verídica?!
    Eu me sinto dividida várias vezes entre amor e paixão... Qual escolher?

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  7. Obrigada pelo comentário,flor. Tomarei sempre minhas xícaras desse chá aqui sim!
    E você tambem fique a vontade para seguir seu coração pelo meu cantinho tb...
    Beijo, bom fim de semana!
    =)

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  8. Não é nada facil tomar uma decisão assim, que muda toda a sua vida da noite para o dia. É engraçado, sua coragem é assustadoramente aplaudível. Eu adorei o texto, como adoro todos os outros que você escreve.
    Mas realmente, é estranho essa história. Não é fictícia?

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  9. creio q vou amanhecer por aqui.seus textos
    são incriveis.

    obrigada.

    Margoh

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  10. Adorei... viciante de ler

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  11. Eu adorei. Muito real. Esse tipo de situação se passa pela cabeça de muitos casais hoje em dia, mas o amor, acredito que ele supera toda essa monotonia que um relacionamento exige após algum tempo. Digo isso pois tenho um exemplo em casa, meus pais são casados há 23 anos e estão juntos há mais de 30... Mas a paixão, realmente é algo novo, emocionante e você tem que ter um afeto muito grande pela pessoa que você ama para não se deixar levar pelos encantos de algo tão avassalador. Beijão, vou sempre ler seus textos por aqui :)

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  12. assisti um filme com uma história parecida, não me lembro bem o nome. enfim, parabéns, gostei de como vc a escreveu.

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